quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

O fim

Uni todas as forças, rompi o ciclo do choro e empurrei a aliança para dentro da gaveta.
Ela não quis sair, relutou em deixar o dedo que tanto ama.
O que ela significa? Não sei mais dizer.
Mas ela é a reunião do que não pode ser.
Do que não é mais
de algo que foi tudo,
a razão e a inspiração,
o medo e a ilusão.
Sua coragem venceu o medo,
mas fui eu que deixou a gaiola aberta para o amor voar.
Não espero mais que ele volte,
quero que siga seu caminho,
mesmo que não coincida com o meu.
Nunca achei que a aliança fosse se romper, mas ela é mais frágil que o sonho, menos poderosa que a realidade.
Ela escolheu seu próprio horizonte,
que é muito longe do meu.
Matou as esperanças,
deixou um vazio em seu lugar,
muito mais que uma marca no polegar.
O tempo é amigo da gente?
Tola farsa do destino.
O tempo mata, quando a aliança se rompe.
E tudo para trás virou história.
As noites mal dormidas,
os sonhos fantasiosos,
palavras ao pé do ouvido.
Conexão em tempo real.
E mais uma bela história se torna História, porque o medo venceu a vida, e sentimentos nada podem contra a realidade.
O perfume ficou guardado no armário.
Vai envelhecer, junto com o tempo.
As fotos, guardadas para a posteridade,
lembranças que um dia meus filhos conhecerão.
Eles podem não ser os seus,
como de fato deveriam ser.
E os apelidos? E a ânsia da espera?
Nada mais sobrevive, sem a esperança.
Não se mata o amor?
Caso impossível seja, que se congele a emoção.
Criemos uma máscara invisível
e uma muralha ao redor do espírito.
Nada pode me abalar.
Nada vai me emocionar.
Um dia um anjo descerá dos céus
e me fará sorrir de novo.
E a aliança ficará guardada,
mofando entre as tralhas do armário.
Dormindo sozinha, com saudades do dedo.
E a dança sorridente virou história.
A hidromassagem no fim do dia,
a cama quentinha durante a noite,
o velar do sono, o sorriso congelado,
o suor que exalava dos nossos corpos,
os cabelos revoltos nos travesseiros,
as taças de vinho largadas num canto,
as roupas caídas no chão.
O sorriso depois do prazer,
o amor que a gente fazia.
Como me acostumar com um novo corpo?
Esquecer os pelinhos nas costas?
Nada mais importa, além da saudade.
E nem a esperança de ter tudo de volta sobrevive.
Porque pior que o tempo, só a separação.
Como matar um amor que ainda existe,
que teima em respirar,
que não queria morrer?

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