Persegui você por todos os caminhos,
todos completos de ti.
Seu rosto triste sempre à frente
Seguindo a marca de um sorriso descrente,
Que se auto-desenhava insistentemente
Nos cantos dos lábios ansiosos.
Sentia-me perdida, porque não o tinha,
mas nas armadilhas da vida te encontrava.
O mesmo cheiro, o mesmo movimento do corpo,
brincando de cão e gato entre os arbustos.
No meio do nada buscávamos tudo.
Éramos felizes porque, enlevados,
com as pontas dos dedos teimosos
desenhamos círculos imaginários ao redor da boca,
pintando o rosto com as cores da paixão.
Vermelha, intensa, chama que nunca se apaga.
Perdi você e mesmo assim te encontrei,
no meio dos meus sonhos mais loucos.
Na crepitação da fogueira que ainda arde,
no soluço que ficou engasgado no céu da boca.
Na lágrima que nunca desceu,
no suspiro que ficou preso na garganta.
No meio do nada, ainda te encontro,
quando o cérebro se recusa a esmorecer,
ao mesmo tempo em que o coração pede chega!
Fique aqui, você já cruzou essa fronteira.
O desconhecido. Apenas dois seres inertes,
abatidos pela fronteira da distância,
que desconheceu o tempo e dele ri.
Gargalha às escondidas porque
por mais que a sorte seja trapaceira
há sempre uma carta na manga.
Do mágico que nunca completa o show,
que não entrega a cartola porque ainda é dele.
Ainda o completa, ainda o domina.
Como a arte milenar do amor,
aquele do qual não ouso dizer o nome,
uma tênue e fulgaz criatura
que cresceu, ganhou vida própria
e tornou-se forte como a vida.
Daquela garganta não saíram mais ais.
As palavras não ditas ainda ensurdecem.
Ficam travando uma guerra inglória,
pedindo vida e levando tempo de troco.
O passar das horas que não se esgotam
minutos incontáveis que se multiplicam,
brincando com o relógio imaginário
criado pela sombra do que ousou ser a essência
de tudo o que a tola criatura um dia sonhou.
Os mesmos sonhos que teimavam em surgir
quando ainda perambulava pelos pátios da escola.
O romance ilustrando os cadernos
em formato de coração.
O uniforme escondendo o corpo que teimava em crescer.
Desde já sabia que um dia você viria.
E preencheria meus vales encantados,
coloriria cada lacuna preto e branco.
Tornaria a vida menos insossa.
Faria da poesia a mais tola e nobre obra da ilusão
enganando quem nunca acreditou
que de uma cartola de mágico desencantado
podia surgir um naco de luz
que se propaga no ar,
queima feito bomba e explode em letras multicolores
aquelas mesmas que teimam em não preencher o papel.
E acabam indo parar nas mesas dos bares
ou nas salas dos consultórios. Cheios de divagações vãs.
Enquanto isso, o medo prevalece
porque a vida é mais teimosa e voluntariosa
que os sonhos tolos de menina-mulher
que se deixou vencer pelo cansaço das sombras,
que ainda teimam em prevalecer em meio ao caos.
Elas estão lá, intocáveis, inertes, mortas-vivas,
teimando em corroer o espírito.
Elas ainda ocupam o mesmo tempo-espaço,
não se deixam vencer nem pelo badalar das horas
nem pelas sirenes insistentes,
nem pelo andar das carruagens,
pela insistência dos iguais, pelos falsos profetas,
pelos livros que se diziam os senhores
da vida, do conhecimento e do amor.
Este sim, o grande vitorioso,
senhor das batalhas, coelho da cartola,
minuto dos relógios, ponto escuro no mapa,
perdido num árido continente
onde o sol teima em não aparecer.
E assim, com um sorriso disfarçado,
o cinismo tomando conta do corpo e da alma
mais um dia se passa
sem que a cortina desça entre os atos
sem que o palhaço se despeça da brincadeira
e a bailarina continua a dançar. Sozinha.
As sapatilhas gastas indicando a exaustão
de um corpo que se recusa a dormir.
Porque o sono significa o começo
de um novo dia, que enfeitará o calendário
e continuará sem sentido algum.
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