Como é que se ensina alguém
quando nem você confia?
O que dizer, o que sentir,
quando tuas forças se concentram
numa manifestação involuntária dos seus músculos?
Quando seu cérebro nem te reconhece mais?
E seus dedos tocam as teclas
e elas nem te obedecem?
Quando os sorrisos se calam
e as unhas dos seus dedos se mostram,
quando até teus confidentes se calam?
É momento de cessar o sentimento
e seguir adiante
quando os teus olhos, faróis,
nem me perseguem mais...
quando as flores que te adornam
nem me enfeitam mais?
Quando a poesia do seu corpo
em um só momento, se esvai?
Quando seu sangue, traiçoeiro,
poesias mil vai desenhando, vai...
Quando as palavras calam
e me emudecem...
Cadê você? Onde estarás?
Em que continente, em que planeta estás?
Um comentário:
Não é minha, mas adoro:
Minha Musa (!)
Minha Musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi
E de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri
É a crença que alentei,
As luas belas que amei,
E os olhos por quem morri!
Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei:
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!
Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez dos teus olhos,
Inspiram minha canção
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do meu coração!
Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei...
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!
E se tu queres, donzela,
Sentir minh’alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
Descansa-me no teu seio.
Ouvirás em devaneio
A minha lira cantar!
Álvares de Azevedo
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